Os primeiros passos da aproximação

Sexta-feira, Setembro 18, 2009

Texto: Analder Lopes
Fotos: Ricardo França

Capitão Felipe usa técnica de aproximação para conquistar a comunidade

A roda se forma, de repente, em uma praça famosa no alto da comunidade da Babilônia, no Leme, zona Sul do Rio, próximo à Escola da Tia Perci.

– Tio, eu sei tabuada até seis, pode perguntar para o senhor ver – desafia Nicolle, de 10 anos.

– Não, está na minha vez. Eu sei multiplicar por cinco – reivindica atenção o pequeno Wendell, também de 10.

O desafio da matemática tem como árbitro um policial militar que se tornou popular entre as crianças da comunidade. É ele o ‘tio’ que toma a tabuada das crianças. O capitão Felipe Lopes Magalhães, comandante da Unidade de Polícia Pacificadora da Babilônia/Chapéu Mangueira, as conhece pelo nome. E não são poucas.

Há menos de três meses instalada na comunidade, a UPP é referência para as crianças da comunidade. E o capitão Felipe tem nas crianças suas principais aliadas.

A cena da tabuada é interrompida para outro desafio. Agora o capitão vira goleiro na brincadeira de “um toque”. A imaginação coletiva transforma a Bandeira do Brasil pintada no muro em traves e travessão. Se o comandante pensou que teria privilégio, se enganou. Não pôde entrar direto na linha e teve que passar pelo gol.

– É a regra, aqui não tem privilégio – explicaram as crianças, ao justificar que o capitão teria que primeiro agarrar os chutes para tentar uma vaga na linha.

–É isso aí, e como regra é para ser seguida por todo mundo, não posso ser exceção – concorda Felipe.

O objetivo é dar apenas um toque na bola em uma linha de passes initerrupta até deslocar o goleiro e fazer gol. Quem está na chuva é para se molhar. E o capitão toma o primeiro gol. E o segundo. O terceiro era inevitável. Êpa! Hora de parar.

A ‘aula’, agora, é de geografia. O capitão usa a Bandeira do Brasil pintada, para perguntar às crianças o que significa as estrelas da bandeira e quantas são.

A lição é interrompida quando o comandante é chamado pela presidente da Associação de Moradores da Babilônia, dona Percília, de 71 anos. Ela pede ajuda para uma senhora da comunidade que está doente e não tem o que comer em cassa. O capitão liga, na mesma hora, para a noiva e pede a ela que compre mantimentos, além de verduras, frutas e leite para a moradora.

- Desde que os policiais chegaram na comunidade, os trabalhos sociais começaram a acontecer aqui e o nosso relacionamento com a polícia mudou. Percebemos que essa é uma polícia diferente. Eles são amigos, acho que o nome está adequado, essa polícia é realmente pacificadora. Os policiais que entravam na comunidade antes vinham para reprimir e não queriam conversa com a gente. Agora, eles não deixam de reprimir, mas também são nossos amigos. Eles agem de forma severa quando tem que agir e de forma amiga quando tem que ser. Eles nos cumprimentam, conversam de forma saudável e nos ajudam da forma que podem – explica a presidente da associação.

A ‘praça das crianças’ também foi cenário para a gravação do filme Tropa de Elite, na cena onde um menor é torturado. Agora a realidade é outra e a cena é bem diferente da violência retratada no filme. O clima é de paz.

– Esse policial é legal, aliás, todos que estão aqui agora são educados. Os outros policiais que vinham aqui na comunidade antes eram marrentos – conta o estudante Pedro Lucas, de 7 anos.

Dona Percília, como é conhecida, é só elogios ao comandante da companhia. Ela afirma confiar no trabalho que está sendo realizado pelos policiais comunitários e diz acreditar que a comunidade vai servir de modelo, será referência para o Rio e para toda a zona Sul.

– O comandante Felipe tem nos ajudado muito. Ele também ajuda a abrir as portas dos órgãos públicos para nós. Isso é muito importante, é um braço forte que nós temos aqui. Além disso, qualquer morador que quiser pode ir à companhia, entrar, conversar, conhecer, enfim, as portas estão sempre abertas. A Babilônia sempre foi um local muito bom de morar, mas agora está ainda melhor. O capitão Felipe faz papel de pai – declara a moradora.

Objetivo é conquistar a confiança da comunidade

A UPP Babilônia/Chapéu Mangueira foi inaugurada há menos de três meses, é a mais nova das companhias instaladas com esse novo tipo de policiamento. Nesse primeiro momento, os policiais estão em uma fase de ação de polícia e ganhar a confiança da comunidade é essencial para manter a paz no lugar.

– As comunidades estão pacificadas, não há traficantes nesses locais, não tem gente armada rodando pelas comunidades, mas existem jovens que eram utilizados pelo tráfico. Com a chegada da Polícia Militar e a saída do tráfico, ficaram sem ter o que fazer, vagando pela comunidade. Então, nesse primeiro momento, a gente tem que separar, ver quem é quem, investigar se ainda existe algum mal intencionado nas comunidades e ganhar a confiança da população.

O comandante ressalta que, como o programa de implantação das UPPs foi uma experiência muito positiva tanto para as comunidades quanto para a PM, os moradores do Chapéu Mangueira e da Babilônia estavam esperando para serem contemplados pelo programa também.

– Quando eu cheguei aqui, me lembro de subir as escadas para chegar à companhia e os moradores encontravam comigo, me davam as boas vindas e me cumprimentavam. A receptividade foi muito boa. Temos conquistado a confiança cada vez mais e estamos empenhados nisso, principalmente com as crianças. Porque queremos mudar aquela referência que elas tinham de que o traficante era quem possuía as melhores roupas, os melhores tênis, o carro do ano, a namorada mais bonita da comunidade, enfim, essas referências já não existem mais.

Segundo o capitão Felipe, os policiais da UPP, mais do que levar a paz, ajudam a construir uma nova geração de cidadãos.

– Quando as crianças de hoje crescerem, elas não irão mais almejar o posto dos traficantes. Vão querer estudar e fazer cursos de qualificação para arrumar bons empregos. São essas referências que nós queremos que elas tenham. Por isso investimos nesse trabalho com as crianças, queremos ganhar a confiança e a admiração delas. Eu jogo videogame e futebol junto com essa criançada, quando eles passam pela UPP elas gritam: ‘ô tio, vamos lá jogar uma partida de futebol com a gente’. Elas entram na companhia, bebem água, quando fazemos cachorro-quente elas comem com a gente, é uma relação muito legal”, resume capitão Felipe.


ASCOM SEGEG.

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