Conheça o comandante da paz

Segunda-feira, Setembro 14, 2009

Texto: Analder Lopes e Ricardo França
Fotos: Priscila Marotti

Coronel José Vieira de Carvalho Júnior

Com 25 anos de serviços prestados à Polícia Militar, o coronel José Vieira de Carvalho Júnior assume o seu maior desafio: comandar o recém-criado Comando de Policiamento Comunitário (CPCom), responsável por gerir as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). O oficial, que já comandou batalhões localizados em áreas conflagradas do Rio, a exemplo do 16 BPM (Olaria), é condecorado internacionalmente. Carvalho participou de três missões da Força de Paz das Nações Unidas (ONU) em áreas de extrema pobreza e grandes conflitos. Em Moçambique, de 1992 a 1993; Timor Leste, de 2000 a 2002; e, depois, de 2004 a 2006. A experiência na guerra marcou o oficial da PM.

- Nesses locais vi coisas inimagináveis. Quase morri, tive malária e fiquei dois dias em coma. Vi muita desgraça, massacres de civis e de militares. Uma cena que não sai da memória foi uma menina no Timor Leste que queria me abraçar, mas não tinha braços, perdidos na guerra. Você já abraçou alguma criança sem braços? Eu parei diante da impossibilidade do seu abraço. Fiquei sem saber o que fazer. Até hoje tenho pesadelos – conta o coronel, emocionado.

A lição das duas guerras civis, apesar da dor, ensinaram ao coronel que uma das causas da guerra é a radicalização, a falta de diálogo. E traça um paralelo entre essas experiências e a filosofia das UPPs.

- Nessas situações tentamos intermediar um conflito. É preciso estabelecer um viés de comunicação claro entre o cidadão e o policial. E é isso que tentamos fazer, hoje, com as UPPs. Trabalhando na ONU, tive a oportunidade de vivenciar situações semelhantes às que vemos hoje nas favelas do Rio. A necessidade da polícia era grande, mas não única. O que eu vi em outros países e o que vejo hoje aqui são questões sociais, de cidadania, de saneamento básico e educação precisando ser discutidas. Os cidadão precisa da polícia, mas com a ausência de projetos de outros órgãos públicos ela é inútil.

O coronel afirma que vai investir na nova fase que as comunidades pacificadas estão vivendo: a da conquista. Segundo o coronel Carvalho, o desafio agora é conquistar os moradores. Carvalho tem percorrido as cinco comunidades que já contam com UPPs instaladas e tem se emocionado com as cenas que tem presenciado. Segundo ele, as crianças tem se aproximado, os moradores o convidam para entrar em suas casas e essa receptividade tem sido o termômetro que o comandante tem usado para constatar que o projeto está dando certo.

Os cinco mandamentos do coronel Carvalho

EXPERIÊNCIA DA GUERRA

“Nessas experiências eu vi de tudo, do luxo à miséria. Vi pessoas morrendo de fome na minha frente, não gosto nem de lembrar porque são cenas duras (o comandante pede um tempo na entrevista e chora). Você chega no hospital e abraça as pessoas e elas só tem da cintura para cima, porque o resto elas perderam ao pisar em uma mina. Certa vez, no Timor Leste, eu fiquei cercado durante dois dias por tropas rebeldes. Eles não me permitiam dormir em nenhum momento durante todo esse tempo. Não usávamos nenhuma arma. Certa vez, fizemos barreiras humanas contra homens armados com M16 apontados para a gente durante dois dias. Foram experiências que me marcaram muito. Eu vi os horrores de uma guerra. Aqui nos morros do Rio estamos acostumados com essa guerrilha urbana de baixa intensidade, que a mídia chama de guerra urbana. Quem diz ou escreve uma coisa dessas não tem noção do que é uma guerra. Eu cheguei em uma cidade de Moçambique onde estava tudo pegando fogo, cheio de corpos pelo chão, gente morta abandonada pela rua, dentro de carros, dentro de casas. Eu vi a formação de uma polícia que depois foi destruída. Vi o meu trabalho de preparar homens para garantir a segurança daquele país ir todo por água abaixo porque os policiais foram mortos.”

PROJETO UPP

“Eu creio nesse projeto, nas UPPs. Sou um incentivador. Estou motivado a levar esse projeto da polícia pacificadora adiante para outras comunidades. E tento motivar todo o efetivo nesse sentido. Porque é um projeto que está dando certo. E eu não digo isso só na base do achismo não. A Fundação Getúlio Vargas esteve nas comunidades Santa Marta e Cidade de Deus para verificar in loco. Os pesquisadores verificaram que o grau de aprovação da população no trabalho dos policiais comunitários é muito alto. Inclusive, a sensação de segurança das pessoas aumentou. Eu diria até que não é mais só sensação, já é uma constatação, porque é algo concreto. Os roubos diminuíram naquelas áreas, os furtos também caíram e tudo isso só foi possível graças a nossa presença, ocupando aqueles locais. Os imóveis, que antigamente eram desvalorizados, voltaram a ter seus valores recuperados. Então, está todo mundo ganhando.”

PERFIL DO COMANDANTE DA UPP

“Antes de assumir o comando de uma UPP, o oficial tem sua conduta e vida pregressa checada, porque não é qualquer pessoa que a gente coloca no lugar que estamos procurando a excelência. Para estar ali, tem que ser um oficial que procure dar exemplo e que tenha uma conduta cristalina. Nós temos nos guiado muito pelo fator competência e compromisso, não colocamos qualquer pessoa, exigimos isso do nosso soldado. Procuramos no nosso soldado também um perfil galante e corajoso. O responsável por uma UPP precisa ser um gestor, estar ali não só para ser o comandante de um grupo de policiais, mas também para remediar conflitos. Não queremos guerreiros, nós temos que desmistificar isso. O guerreiro, quando for necessário, vai aparecer, com certeza. Ninguém vai se intimidar diante de um confronto ou de uma ameaça, mas nós não queremos esse guerreiro na maior parte do tempo.”

REALIDADE NAS COMUNIDADES

“Eu tenho ido às comunidades ver o meu pessoal, verificado de perto como eles estão distribuídos. Tenho feito vistoria nas sedes das unidades e já aconteceu caso de morador me convidar para visitar a sua casa. Uma vez fui com a capitão Pricilla (de Oliveira Azevedo, comandante da UPP Dona Marta) em uma casa onde me receberam tão bem que fiquei surpreso. Não esperava aquela recepção de pessoas humildes que fizeram de tudo para que eu me sentisse bem. Eles nem me conheciam, mas as crianças brincaram comigo como se tivessem intimidade. Eles moravam em um barraco de madeira onde mal cabem seis pessoas, mas são 16 que moram lá. Dez são crianças e a mulher está grávida de novo. Você olha para aquela realidade e vê que aquelas pessoas estão abaixo da linha da pobreza, já são praticamente miseráveis. E as crianças falaram comigo e me abraçaram como eu nunca vi. Isso para mim é fruto do trabalho da capitão que está lá, da equipe que está com ela desenvolvendo o trabalho na comunidade. Os moradores estão percebendo que essa polícia é diferente, ela se aproxima do cidadão, dialoga com ele.”

PADRÃO UPP

“Estamos estabelecendo uma padronização e criando critérios mínimos para se iniciar uma UPP. Para abrirmos uma nova unidade temos que levar em consideração a comunidade, o aspecto geográfico, a quantidade de pessoas que circulam por ali, o número de habitantes, quantos e quais são os acessos, enfim, uma série de levantamentos que temos em mente. Todo novo projeto vai ser estudado e aprimorado até conseguirmos viabilizar resultados que achamos que atende as necessidades da comunidade. A parceria do Instituto de Segurança Pública (ISP) e a Fundação Getúlio Vargas nos dão segurança de que tudo o que fazemos é pesquisado e verificado antes. O ISP nos ajuda informando o aspecto criminal das áreas onde estamos atuando, nos explica o que existia naquelas comunidades antes, nos apresenta um estudo dos registros de ocorrências nas áreas, verifica se os índices melhoraram depois que passamos a atuar naqueles locais, se migrou para outros lugares, enfim, utiliza todos esses instrumentos que nos auxilia melhorar nosso serviço.”

ASCOM SEGEG.

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