A comunidade das casas coloridas

Quarta-feira, Setembro 16, 2009

Texto: Analder Lopes
Fotos: Ricardo França e Marcos Benjamin

O Santa Marta agora atrai turistas. Na foto, o inglês Andrew Strauss e sua família.

Apaixonado pelo Brasil, especialmente pelo Rio, cidade que visita anualmente há duas décadas, o inglês Andrew Strauss, de 47 anos, é adepto do “turismo sociológico”: gosta de conhecer de perto não apenas as belezas naturais das cidades as quais visita, mas também, e principalmente, sua gente, sua cultura, seus extratos sociais. No Rio, a Rocinha era sua comunidade preferida. Mas, durante anos, Andrew guardou a frustração de nunca ter visitado um território até então proibido: “a comunidade das casinhas coloridas.”

A descrição carinhosa refere-se ao Morro Santa Marta, favela que ele sempre via à distância em suas passagens pela cidade. A curiosidade do inglês aumentou após a comunidade ter sido cenário da gravação do clipe ‘They don’t care about us’, do cantor Michael Jackson, nos anos 90. O Santa Marta foi a primeira experiência da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), implantada no local no dia 22 de dezembro de 2008, pela Secretaria de Estado de Segurança.

De volta ao Brasil em agosto desse ano, foi num diálogo com o motorista de táxi que o inglês descobriu o caminho livre para mais uma conquista:

- Veja, é a comunidade das casinhas coloridas – apontou o inglês, pela janela do táxi.
- Sim, é o Morro Santa Marta – respondeu o taxista – agora está em paz, a polícia agora está ali dia e noite, não existe mais bandido – completou, fazendo questão de passar a informação completa.

Foi a senha para Andrew refazer o seu plano de viagem. Poderia, finalmente, conhecer de perto as cores que tanto o impressionaram. E foi lá no alto do morro, em frente à UPP, que o inglês, que estava acompanhado de sua filha, a estudante brasileira Vitória Caetana, de 15 anos, e da amiga francesa Jana Gromova, que ele se encontrou, por acaso, com a equipe de reportagem do site UPP Repórter. Carregando uma câmera digital à tiracolo, o inglês contou a sua história e se disse impressionado com a beleza da vista panorâmica.

- Lá de baixo, no bairro de Botafogo, ficava olhando para o morro, para essas casinhas coloridas e isso chamava a minha atenção. Lá debaixo, cheguei a perguntar também o que era o bondinho e para que servia. Subi por ele, encontrei alguns moradores e todos foram muito simpáticos. E tudo graças ao taxista que me contou que o Santa Marta estava pacificado –  contou Andrew.

De acordo com o inglês, o interesse de visitar a comunidade tem por objetivo sentir a vida dos moradores.

– Se conhecermos os pontos turísticos da parte nobre da cidade, veremos somente um lado. O outro, que é a riqueza cultural dos moradores, tem que subir os morros para conhecer porque a cultura nesses locais é bem diferente de lá debaixo, próximo às praias. Eu acho muito importante sentir, conhecer, ver e conversar com as pessoas.

Andrew concorda que presenciar as dificuldades que os moradores dessas comunidades vivem é um choque de realidade nos turistas de países considerados de primeiro mundo.

– Como estrangeiro percebo que a distribuição econômica é muito desigual aqui. Meus amigos franceses, quando sabem que eu vim ao Brasil, perguntam se a capital do país é bonita. Mas eles acham que a capital é Buenos Aires. Quando eu digo que vim ao Rio de Janeiro eles perguntam se eu fiquei bem, se eu tomei cuidado. Questionam até porque eu insisto em viajar todos os anos para um lugar perigoso. E eu respondo que não é bem assim como eles pensam. Faz 20 anos que eu venho aqui e nunca tive problemas.

Andrew, Jana e Vitória conheceram a comandante da UPP, Pricilla de Oliveira. Eles fizeram várias perguntas a capitão sobre o processo de pacificação, como funciona o programa, se há previsão de estendê-lo para outras comunidades. Aproveitaram a companhia para percorrer alguns pontos do Santa Marta.

– Aqui se tem a vista mais bonita do Rio de Janeiro – declarou Andrew ao se despedir.

O Santa Marta aos poucos vai se tornando uma referência para os visitantes estrangeiros. O que Andrew leva de volta à França não está registrado nem no melhor guia de turismo do mundo. Afinal, como descrever a sensação que hoje experimentam os moradores do morro ao reconquistarem um território perdido? Como fotografar as verdadeiras cores da liberdade na comunidade das casas coloridas?

ASCOM SEGEG.

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