Futebol une policiais e crianças no Batam

Sexta-feira, Setembro 18, 2009

Texto: Analder Lopes
Fotos: Ricardo França

A seleção do Batam: aulas de futebol e cidadania. (divulgação UPP Batam)

Os pequenos pés descalços que se juntam em um campinho de terra batida, ao redor de uma bola, no Jardim Batam, em Realengo, Zona Oeste do Rio, deixam pegadas que anunciam o tempo futuro. Simbolizam um traço das vidas de crianças e adolescentes da comunidade que antes vivia sob os mandos e desmandos de traficantes e milicianos que impunham suas próprias leis. Hoje, graças ao projeto UPP, a história que eles protagonizam é outra, a mesma que toma conta do imaginário de muitos jovens brasileiros. São sonhos que calçam chuteiras.

A paixão nacional, o futebol, contamina o Jardim Batam. O Maracanã local tem nome: fica na Praça Pedro Nava, uma das mais badaladas do bairro. Ali, o professor Claudinei, como é chamado pelos novos atletas, desenvolve o projeto da escolinha de futebol, iniciativa do Projeto Saciar, da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da comunidade. Todas as terças, quintas e sábados mais de 300 crianças, jovens e adultos se reúnem no campinho para ter aulas com um profissional. O projeto inicial, que tinha o objetivo de ser uma opção de lazer para crianças e adolescentes na faixa etária de seis a 16 anos, hoje ganhou envergadura e já atende alunos de três a 26 anos.

Jogador profissional durante 15 anos, Claudinei Borges Martins se dedica integralmente às aulas. A motivação que inspira a dedicação do instrutor é a vontade de oferecer aos alunos uma opção de lazer integrado a ensinamentos para viverem uma vida diferente da que muitos moradores da comunidade tiveram no passado.

O atleta, nascido no bairro, acabou se tornando referência para as crianças que sonham  jogar futebol em um grande clube.

- Senti que devia fazer alguma coisa para ocupar os jovens dessa comunidade onde nasci, cresci e não troco por nenhuma outra. Já perdemos muitos jovens aqui. Alguns foram presos, outros morreram em trocas de tiros, mas desde que a companhia de polícia comunitária passou a funcionar aqui, as coisas mudaram. Estou muito feliz por ter o suporte desse projeto que me dá condições de desenvolver um trabalho que ajuda a levar outros tipos de valores para a vida desses jovens. Penso que estamos tirando da mente deles a ideia de ter o tráfico como uma opção de vida. A polícia ajuda muito, pois hoje os jovens daqui não têm os traficantes como referência. Esse aliciamento não existe mais no Batam e isso é o mais importante, explica o treinador.

Claudinei começou a carreira no time juvenil do Vasco, em 1984, depois jogou na equipe sub-20 da Cabofriense, em 1990, onde ficou por cinco anos. Ao sair do clube da Região dos Lagos, foi jogar na equipe do Jamber, na Indonésia. Lá ficou durante um ano, quando voltou para o Brasil. Ainda ficou dois anos jogando em times como América (RJ), Anápolis (GO), Comercial (ES) e depois que parou de jogar profissionalmente passou a garimpar novos talentos como treinador de futebol.

- Participando desse projeto eu tenho um suporte que me permite ter uma estrutura para desenvolver um trabalho que ajude a levar outros tipos de valores para a vida dessas crianças e tirar da mente deles a idéia de ir para o tráfico, por exemplo. Hoje não tem tráfico mais aqui dentro do Batam e isso é o mais importante para a gente. Os campinhos de futebol que temos aqui na comunidade, por exemplo, não tem estrutura para desenvolver um bom treinamento. O comandante da UPP, capitão Eliézer, abraçou o nosso projeto e está sendo fundamental o suporte que ele está nos dando, explica Claudinei.

O instrutor Claudinei revela também que as mudanças no Batam interferem de forma significativa na qualidade de vida dos moradores do bairro. “O lugar em que a gente mora hoje é o céu. Mas nem sempre foi assim, eu já cansei de ver famílias chorando na beira da Avenida Brasil porque o carro delas havia sido roubado, veículos de amigos meus também foram levados por traficantes. São coisas que hoje nós não temos mais. Hoje meu filho sai à noite, vai para onde ele quiser aqui dentro do bairro e eu não me preocupo. Antigamente ele não podia ir à padaria. Antes o campo não ficava cheio de crianças e adolescentes como hoje, os pais de muitos deles não deixavam que os filhos saíssem de casa e isso prejudicava o crescimento e o desenvolvimento deles. Hoje as crianças brincam nas ruas e o principal lazer que elas têm é a escolinha de futebol”.

ASCOM SEGEG.

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